Páginas

quarta-feira, 27 de março de 2013

Anjos III

ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA

LILIAN GHISSO ARISTIMUNHO




3. CLASSIFICAÇÃO DOS ANJOS

Os anjos não são apresentados simplesmente como mensageiros de Deus, mas como ministros aos herdeiros da salvação. Que podem ser estudado a respeito de três classes especiais.


3.1. Arcanjo


O único arcanjo referenciado pela Bíblia é Miguel, cujo nome significa "Aquele que é semelhante a Deus":


· "Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda." (Judas 9 ACF1)


Devido ao significado do nome Miguel, confundem-no alguns com Cristo, alegando ser Miguel um outro nome para Jesus. John Gill foi um dos defensores desta teoria, conforme pode ser visto em seu comentário a Judas 9:


· "A quem se refere, não a um anjo criado, mas a um eterno, o Senhor Jesus Cristo; como se denota através do nome Miguel, que significa: "Aquele que é como Deus", e quem é como Deus, ou semelhante a Ele? Além do Filho de Deus, quem é igual com Deus? E do seu papel como o arcanjo, ou Príncipe dos anjos, porque Cristo é o cabeça de todos os principados e potestades; e do que é dito em outras partes sobre Miguel, como ele sendo o grande Príncipe, ao lado do povo de Deus, e tendo os anjos em sua submissão, e seu comando. ( Daniel 10:21; 12:1; Apocalipse 12:7). 


Assim Filo o Judeu o chamou de a mais antiga Palavra, primogênito de Deus, o arcanjo."


Uriel é chamado de arcanjo nesta passagem do apócrifo de Esdras:


· "E sobre estas coisas Uriel, o arcanjo, deu-lhes resposta, e disse: Mesmo quando o número de sementes for preenchido em vocês, porque ele tem pesado o mundo na balança." (4:36)


A palavra arcanjo aparece somente duas vezes na Bíblia Sagrada, uma no texto em Judas 9, e outra no texto em I Tessalonicenses 4:16 ACF


· "Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro." 1 Tessalonicenses 4:16 ACF


Nesta passagem o Senhor Jesus é distinguido do arcanjo, com cuja voz virá o Senhor buscar Sua Igreja. Também é importante verificar outra passagem bíblica que referencia Miguel:


· "Mas o príncipe do reino da Pérsia me resistiu vinte e um dias, e eis que Miguel, um dos primeiros príncipes, veio para ajudar-me, e eu fiquei ali com os reis da Pérsia." (Daniel 10:13 ACF)


Miguel é aqui apontado como "um dos primeiros príncipes". Cristo não pode ser referido como "um dos". Ele é único, é o unigênito de Deus, é Deus. Também não é "dos primeiros", pois já estava lá desde a eternidade, e tudo foi feito por Ele; incluindo-se nisto: "um dos primeiros príncipes":


· "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. (2) Ele estava no princípio com Deus. (3) Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez." (João 1:1-3 ACF)


Notemos que Miguel significa "aquele que é semelhante a Deus". Gill segue sua argumentação elevando a categoria da palavra semelhante para uma igualdade quando pergunta: "quem é igual a Deus?". Na verdade Miguel foi feito semelhante a Deus. Nós próprios fomos feitos à Sua imagem e semelhança! Mas, nunca seremos iguais a Deus!


Vemos também em Hebreus, o autor sagrado referindo-se a Jesus de modo completamente distinto dos anjos, colocando-o em posição de autoridade sobre todos os anjos:


· "Feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles. (5) Porque, a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, Hoje te gerei? Eu lhe serei por Pai, E ele me será por Filho? (6) E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem. (7) E, quanto aos anjos, diz: Faz dos seus anjos espíritos, E de seus ministros labareda de fogo. (8) Mas, do Filho, diz: O Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; Cetro de eqüidade é o cetro do teu reino". (Hebreus 1:4-8 ACF destaque acrescentado)


Pelo claro ensino das escrituras Jesus NÃO é um anjo, os anjos foram por Ele criados, e Miguel é distinto de Cristo. Miguel é o arcanjo e Cristo é o Filho de Deus. Não cabendo qualquer confusão neste ponto.

3.2. Serafins

A palavra hebraica para Serafim é "saraph", que significa serpente que queima ou serpente ardente. Esta palavra se origina em outra palavra hebraica que significa queimar ou arder. A única ocasião em que esta palavra descreve esta classe particular de anjos ocorre no capítulo 6 de Isaías, onde são descritos como seres com aparência humana (rostos, pés e mãos) e com seis asas, sendo duas utilizadas para cobrir o rosto, e duas para cobrir os pés, e com duas voavam. Criaturas com características semelhantes podem ser vistas em Apocalipse 4, onde encontramos quatro seres também com seis asas, e louvando ao Senhor de modo muito semelhante ao descrito por Isaías. Não há, contudo, qualquer garantia de que estes textos tratem dos mesmos seres, ou tão somente, são seres com algumas características comuns.


A palavra "saraph" no Antigo Testamento é utilizada para designar as serpentes ardentes2 que picavam o povo de Israel no deserto, bem como para designar a serpente que foi feita por Moisés e posteriormente destruída por Ezequias. As referências aos anjos em Isaías como Serafins (serpentes) nos remetem ao Jardim do Éden onde a antiga serpente tentou Eva. Fica, então, a pergunta: - Seria Satanás um Serafim?


3.3. Querubins


Querubim vem da palavra hebraica "kerub". No grego temos uma única referência à palavra Xeroubin (cheroubim) que é o plural do hebraico "kerub"


No Antigo Testamento temos 66 versos que trazem a palavra "kerub". Sua primeira ocorrência descreve os seres que foram postos por Deus, como guardas, ao oriente do Jardim do Éden, quando, por causa do pecado, expulsou de lá o homem. Em outras são referências às figuras postas sobre propiciatório (tampa que protegia o conteúdo da arca da Aliança), uma em cada extremidade, provendo proteção aos objetos contidos na arca:


· "Farás também dois querubins de ouro; de ouro batido os farás, nas duas extremidades do propiciatório. (19) Farás um querubim na extremidade de uma parte, e o outro querubim na extremidade da outra parte; de uma só peça com o propiciatório, fareis os querubins nas duas extremidades dele. (20) Os querubins estenderão as suas asas por cima, cobrindo com elas o propiciatório; as faces deles uma defronte da outra; as faces dos querubins estarão voltadas para o propiciatório. (21) E porás o propiciatório em cima da arca, depois que houveres posto na arca o testemunho que eu te darei. (22) E ali virei a ti, e falarei contigo de cima do propiciatório, do meio dos dois querubins (que estão sobre a arca do testemunho), tudo o que eu te ordenar para os filhos de Israel". (Êxodo 25:18-22 ACF)


O propiciatório, com os querubins, não somente proviam proteção ao conteúdo da arca, mas formavam um suporte visível para o trono invisível de Deus.


· "Tu, que és pastor de Israel, dá ouvidos; tu, que guias a José como a um rebanho; tu, que te assentas entre os querubins, resplandece". (Salmo 80:1 ACF)


· "O SENHOR reina; tremam os povos. Ele está assentado entre os querubins; comova-se a terra". (Salmo 99:1 ACF)


Foram bordados querubins também nas cortinas e nos véus do Tabernáculo, bem como nas paredes do Templo. ( Êxodo 26:31 e II Crônicas 3:7


Também eram querubins que sustentavam o trono de Deus no relato encontrado em Ezequiel 10:


· "Depois olhei, e eis que no firmamento, que estava por cima da cabeça dos querubins, apareceu sobre eles uma como pedra de safira, semelhante a forma de um trono. (2) E falou ao homem vestido de linho, dizendo: Vai por entre as rodas, até debaixo do querubim, e enche as tuas mãos de brasas acesas dentre os querubins e espalha-as sobre a cidade. E ele entrou à minha vista. (3) E os querubins estavam ao lado direito da casa, quando entrou aquele homem; e uma nuvem encheu o átrio interior. (4) Então se levantou a glória do SENHOR de sobre o querubim indo para a entrada da casa; e encheu-se a casa de uma nuvem, e o átrio se encheu do resplendor da glória do SENHOR. (5) E o ruído das asas dos querubins se ouviu até ao átrio exterior, como a voz do Deus Todo-Poderoso, quando fala. (6) Sucedeu, pois, que, dando ele ordem ao homem vestido de linho, dizendo: Toma fogo dentre as rodas, dentre os querubins, entrou ele, e parou junto às rodas. (7) Então estendeu um querubim a sua mão dentre os querubins para o fogo que estava entre os querubins; e tomou dele, e o pôs nas mãos do que estava vestido de linho; o qual o tomou, e saiu. (8) E apareceu nos querubins uma semelhança de mão de homem debaixo das suas asas". (Ezequiel 10:1-8 ACF)


Observemos, neste relato, várias características dos querubins, como o fato de serem criaturas aladas, de terem mãos como que de homens, de serem os sustentadores do trono de Deus e de serem criaturas extremamente poderosas.








AnjosII


ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA

LILIAN GHISSO ARISTIMUNHO



2. FUNÇÃO DOS ANJOS

Tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento os anjos têm a função de louvar a Deus e trazer a mensagem Divina até os homens.

1. Conforme o Antigo Testamento


Os judeus conheciam seres colocados entre Deus e os homens que chamavam primeiramente mal’kîâ (mensageiros). Pela forma como aprecem: homens[1]; pela sua relação com Deus “exercito de Javé”, o exercito celeste; pelo que o senhor foi chamado “Deus dos exércitos”. Representavam-se aos anjos no céu junto de Deus, onde formavam sua corte; contudo, segundo uma antiga crença, deviam habitar também na terra. Acreditava-se que eles eram enviados aos homens como mensageiros de Deus às vezes para protegê-los e as vezes para puni-los.As passagens citadas a seguir nos mostram as principais funções dos anjos relatadas no Antigo Testamento. Anjos louvando ao SENHOR, enviando mensagens Suas, obedecendo à vontade de Deus. Como em gênesis:


· “Jacó prosseguia no seu caminho, quando sobrevieram mensageiros de Deus. Ao vê-los exclamou: “É um acampamento de Deus”, e chamou aquele lugar de Mahanaim.”[2]".


E Também em Juízes: "O anjo do SENHOR veio sentar-se sob o terebinto[3] de Ofrá, que pertencia a Ioahs, do clã de Abiézer; Guideon, seu filho, estava batendo o trigo no lagar para subtraí-lo a do Midian. O anjo do SENHOR lhe apareceu e lhe disse: O SENHOR está contigo, valente guerreiro![4]".


As funções dos anjos mostradas pelo Antigo Testamento são em partes referenciadas novamente no Novo Testamento. Além disso, os anjos são também apresentados como ministros de Deus aos herdeiros da salvação em Cristo: “O inimigo, que o semeou, é o diabo; e a ceifa é o fim do mundo; e os ceifeiros são os anjos. Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consumação deste mundo. Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que causa escândalo, e os que cometem iniqüidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes”[5].


· “Ora, havia naquela mesma comarca pastores que estavam no campo, e guardavam, durante as vigílias da noite, o seu rebanho. E eis que o anjo do Senhor veio sobre eles, e a glória do Senhor os cercou de resplendor, e tiveram grande temor. E o anjo lhes disse: Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo: Pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor”. [6].


· “Vede, não desprezeis algum destes pequeninos, porque eu vos digo que os seus anjos nos céus sempre vêem a face de meu Pai que está nos céus[7]".


· "E apartou-se deles cerca de um tiro de pedra; e, pondo-se de joelhos, orava, dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua. E apareceu-lhe um anjo do céu, que o fortalecia[8].


· "E a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra, Até que ponha a teus inimigos por escabelo de teus pés? Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação[9]?"


· "E olhei, e ouvi a voz de muitos anjos ao redor do trono, e dos animais, e dos anciãos; e era o número deles milhões de milhões, e milhares de milhares, que com grande voz diziam: Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e ações de graças[10]".


· "E eu, João, sou aquele que vi e ouvi estas coisas. E, havendo-as ouvido e visto, prostrei-me aos pés do anjo que, mas mostrava para o adorar. E disse-me: Olha, não faças tal; porque eu sou conservo teu e de teus irmãos, os profetas, e dos que guardam as palavras deste livro. Adora a Deus[11]".


2.2. A Natureza dos Anjos

A doutrina cristã dos anjos derivada da Sagrada escritura, introduziu em si, ora mais ora menos elementos imaginativos judaicos extra-bíblico, como crenças contemporâneas sobre espíritos da natureza, de forma a conceber, às vezes, larga margem a opinião populares. As concepções foram sendo eliminadas pouco a pouco para se chegar a uma doutrina própria da Igreja baseada na Escritura, e podemos encontrar tais referencias nos escritos dos pais da igreja, por exemplo; Irineu, Gregório Magno, Clemente de Alexandria. Agostinho etc ...


Os anjos são seres espirituais, aos quais se chamou também de espíritos, e não se quis conhecer-lhes um corpo de carne. Antigamente, porém, não foi entendido que os anjos estivessem isentos de qualquer tipo de corpo, como se fossem absolutamente espirituais, sem nenhuma corporeidade atribuía-se aos anjos um corpo imaterial, como correspondia à sua natureza que se pensava que fosse de algum modo aeriforme ou semelhante ao fogo: os anjos bons tem corpus aethereum, id est igneum, os maus um corpus aerium[12].


· "Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?"(Hebreus 1:14 ACF)


· "E vieram os dois anjos a Sodoma à tarde, e estava Ló assentado à porta de Sodoma; e vendo-os Ló, levantou-se ao seu encontro e inclinou-se com o rosto à terra[... ]E porfiou com eles muito, e vieram com ele, e entraram em sua casa; e fez-lhes banquete, e cozeu bolos sem levedura, e comeram[...]Aqueles homens porém estenderam as suas mãos e fizeram entrar a Ló consigo na casa, e fecharam a porta;" (Gênesis 19:1,3,10 ACF)


Como já mencionado, os anjos são seres imortais, tendo existência eterna:


· "Mas os que forem havidos por dignos de alcançar o mundo vindouro, e a ressurreição dentre os mortos, nem hão de casar, nem ser dados em casamento; Porque já não podem mais morrer; pois são iguais aos anjos, e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição". (Lucas 20:35-36 ACF)


São seres extremamente poderosos, sendo dotados de poderes sobre-humanos, pois foram, por Deus, criados superiores aos homens:


· "Enquanto os anjos, sendo maiores em força e poder, não pronunciam contra eles juízo blasfemo diante do Senhor". (II Pedro 2.11 ACF)


· "Que é o homem mortal para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites? Pois pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste". (Salmo 8:4-5 ACF)

2.2.1. Todavia, os anjos não são onipotentes

 "Então me disse: Não temas, Daniel, porque desde o primeiro dia em que aplicaste o teu coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, são ouvidas as tuas palavras; e eu vim por causa das tuas palavras. (13) Mas o príncipe do reino da Pérsia me resistiu vinte e um dias, e eis que Miguel, um dos primeiros príncipes, veio para ajudar-me, e eu fiquei ali com os reis da Pérsia". (Daniel 10:12-13 ACF).

2.2.2. Não são oniscientes
 "Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, mas unicamente meu Pai". (Mateus 24:36 ACF)
2.2.3. Não são onipresentes
 "Ora, havia naquela mesma comarca pastores que estavam no campo, e guardavam, durante as vigílias da noite, o seu rebanho. (9) E eis que o anjo do Senhor veio sobre eles, e a glória do Senhor os cercou de resplendor, e tiveram grande temor". (Lucas 2:8-9 ACF)

Mas são extremamente velozes, podendo se transportar dos céus a terra quase que instantaneamente:

· "Ou pensas tu que eu não poderia agora orar a meu Pai, e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?" (Mateus 26:53 ACF)

2.2.4. Os anjos são dotados de grande inteligência

 "Agora vim, para fazer-te entender o que há de acontecer ao teu povo nos derradeiros dias; porque a visão é ainda para muitos dias". (Daniel 10:14 ACF)


· "Aos quais foram revelados que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vós foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar". (I Pedro 1.12 ACF)


· "E o anjo me disse: Por que te admiras? Eu te direi o mistério da mulher, e da besta que a traz, a qual tem sete cabeças e dez chifres". (Apocalipse 17:7 ACF).
2.2.5. Eles têm vontade própria, e poder de decisão
· "Como caíste desde o céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações! (13) E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. (14) Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo". (Isaías 14:12-14 ACF).

· "E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia". (Judas 6 ACF)

2.3.7. São também seres emotivos

 "Quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus jubilavam?" (Jó 38:7 ACF)

[1] Dicionário de Teologia, 1970.p. 107


[2] TEB, 1996. Gênesis 32:2-3.O 32:3 Contra o politeísmo da época, a bíblia lembra com frequência que, para o patriarca, lá onde se encontrava o anjo-mensageiro,ali se encontra verdadeiramente deus 9cf.cap16 e 18)


[3] Terebinto: carvalho


[4] TEB, 1996.Juízes 6:11-12. O 6:11 O anjo do senhor é o enviado e o representante de Deus. Ele não tem personalidade independente de Deus e frequentemente é um substitutivo literário para o próprio Deus. Os v v . 14.16.23 mostram claramente que é o Senhor em pessoa que aparece a Guideon sob a forma de um anjo. Como nos outros relatos, é somente no final da aparição que o homem percebe a identidade divina de seu visitante (v. 22; cf. 13.16-21; Gn 18,1-15; 32,23-33; Js 5,13-15)


[5] A BIBLIA, Almeida revisada e Atualizada, 1996. Mateus 13:39


[6] Ibiden. Lucas 2:8-11


[7] Ibidem. Mateus 18:10


[8] A BIBLIA, 1996. Lucas 22:41-43


[9] Ibidem. Hebreus 1:13-14


[10] Ibidem. Apocalipse 5:11-12


[11] Ibidem. Apocalipse 22:8-9


[12] Dicionário de teologia, 1970.p. 113.

Anjos I


ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA

LILIAN GHISSO ARISTIMUNHO

1.ANJOS


            Os anjos aparecem em toda a Bíblia de Gênesis a Apocalipse. Embora não tenha sido objeto de estudos dos eruditos ao longo dos últimos 200 anos, os anjos estão de volta em nossos dias, não só na opinião pública, mas, na pesquisa Bíblica, com seu renovado interesse pela mitologia e pela literatura apocalíptica como pano de fundo do Antigo Testamento e do Novo Testamento.


1.1. Terminologia


O termo anjo da língua portuguesa tem origem na palavra latina angelus, que por sua vez deriva do termo grego αγγελος (aggelos). Em hebreu, a palavra traduzida como anjo é םלאכ (mal'ak). A palavra malak ocorre 214 vezes no Antigo Testamento, e a palavra aggelos ocorre 188 vezes no Novo Testamento, sendo que ambas tem o significado de mensageiro, representante, enviado ou embaixador. O termo apropriado para esse estudo é angelogia (do grego angelos, “anjo” e logia, “estudo”, “dissertação”). Angelogia se constitui na doutrina especifica dentro da teologia Sistemática, a qual se ocupa em estudar a existência, as características, natureza moral e atividades dos anjos.

1.2. Criação dos anjos


Biblicamente a existência dos anjos é claramente demonstrada pelo ensino do Antigo Testamento. Os anjos são criaturas, ou seja, foram criados por Deus, eles não existem desde a eternidade como o próprio Deus o que podemos destacar em Neemias:
·         "Só tu és SENHOR; tu fizeste o céu, o céu dos céus, e todo o seu exército, a terra e tudo quanto nela há os mares e tudo quanto neles há, e tu os guardas com vida a todos; e o exército dos céus te adora[1]“.
Como exemplo podemos alistar também o salmo 148:
·         "Louvai-o, vós, todos os seus anjos; louvai-o, vós, todos os seus exércitos. Louvai-o, sol e lua; louvai-o, vós, todas as estrelas brilhantes. Louvai-o, vós, os mais altos dos céus, e vós, as águas que estais sobre os céus. Que eles louvem o nome do SENHOR, pois ele mandou, e foram criados[2]".


1.2.1. O número de anjos


Os anjos, ao contrário da raça humana, não têm capacidade reprodutiva como afirma o evangelista Mateus: No Getsêmani Jesus disse a um discípulo que queria defende-lo dos que vieram prende-lo: [3].”Acaso pensas que não posso rogar a meu Pai e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos? Em vista disso, é perfeitamente seguro dizer que os anjos constituem um poderoso exercito. Eles não formam uma raça como os seres humanos, pois são espíritos que não se casam e não nascem uns dos outros. Seu numero total foi criado no princípio, não há aumento em suas fileiras.
Dessa maneira supõe-se que o número de anjos não se alterou, pois, tal qual o homem, eles têm existência eterna, seja para o bem ou para o mal. Contudo, não é possível determinar quantos anjos foram criados. A Bíblia sempre se refere a eles através de números metafóricos, indicando grande quantidade, mas em nenhuma parte há um número exato: "Um rio de fogo escorria e saía de diante dele. Mil milhares o serviam; e dez mil miríades estavam diante dele. O tribunal tomou assento, e o juízo, e livros foram abertos[4].”. Um outro exemplo que se refere ao número de anjos pode ser encontrado em Hebreus:: "Mas vós vos aproximastes da montanha do Sião e da cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste, e das miríades de anjos em reunião festiva[5]"


1.2.2. Gênero dos Anjos


Pela terminologia também podemos entender que os anjos têm gênero masculino, pois são assim invariavelmente referidos. Não cabe, portanto, a idéia de que anjos não teriam gênero definido. Se assim o fosse, seriam estes representados por palavras de gênero neutro nas línguas de origem, ou em ocasiões seriam representados utilizando-se palavras de gênero masculino e em outras de gênero feminino; fatos estes que nunca ocorrem.




[1] TEB,1996.  Neemias 9:6. A longa oração que se inicia aqui é uma evocação da história dos israelitas desde as origens. Ela começa por evocar a criação do mundo (Gn 1).
[2] TEB,1996. Salmo 148: 2-5.
[3] TEB,1996. Mateus 26:53
[4] TEB,1996. Daniel 7:10.
[5] TEB,1996. Hebreus 12:22.


segunda-feira, 11 de março de 2013

Gnosticismo Samaelita.


1.3.5. O Gnosticismo Samaelita.



A história do gnosticismo samaelita forma uma linha contínua desde os primeiros gnóstica anteriores ao surgimento do cristianismo até os adeptos dos dias atuais. Mas essa história é pouco conhecida entre os membros da corrente samaelita.


É curioso notar que dentre todos os períodos históricos do gnosticismo samaelita o mais desconhecido para os estudantes desta corrente seja justamente o período mais recente. A seguir registro alguns acontecimentos desta fase da história gnóstica que podem servir de base de pesquisa para os estudantes interessados em conhecer um pouco mais sua herança cultural.
O gnosticismo moderno tem seu início no século XIX com Jules-Benoît Stanislas Doinel du Val-Michel (1842-1903).
Jules Doinel investigou os mistérios cátaros e gnósticos mais antigos e fundou em 1890 na França a Igreja Gnóstica. Doinel consagrou vários Bispos e Sophias dentre os quais estavam: Papus [Gérard Encausse] (1865-1916) e Léonce-Eugène Joseph Fabre des Essarts (1848-1917) que sucedeu Doinel como patriarca da Igreja Gnóstica.
Fabre des Essarts consagrou Jean Bricaud (1881-1934) em 1901 que se tornou patriarca da Igreja Gnóstica Universal. Essa linha da Igreja Gnóstica acabou por assimilar as outras linhas nascidas de cismas e divergências.
Durante a Conferência Internacional Massônica e Espiritualista organizada por Papus em 1908 Merlin Peregrinus [Theodor Reuss] (1855-1923) recebeu autoridade episcopal na Igreja Gnóstica. Assim surgiu a Eclésia Gnóstica Católica levada para a Alemanha por Merlin Peregrinus e posteriormente assimilada pela Ordo Templi Orientis quando esta estava sob orientação de Perdurabo [Aleister Crowley] (1875-1947).
A Igreja Gnóstica Universal de Bricaud desenvolveu estreitos laços com o Martinismo de Papus já que tanto Brucaud quanto Doinel eram martinistas. Em 1918 Bricaud tornou-se o mestre da Ordem Martinista e do Rito de Mênphis e Mizraim da Maçonaria. Uma disputa pela liderança do Martinismo entre Jean Bricaud e Victor Blanchard dividiu a ordem. Blanchard era ex-secretário de Papus e havia sido consagrado por Bricaud na Igreja Gnóstica em 1918. Da linha de Blanchard descende a Antiga e Mística Ordem Rosa Cruz de Harwey Spencer Lewis.
Após sua morte Bricaud foi sucedido por Constant Chevillon como patriarca da Igreja Gnóstica Universal e mestre da Ordem Martinista. Chevillon havia sido consagrado na Igreja Gnóstica em 1936.
Constant Chevillon consagrou Huiracocha [Arnold Krumm-Heller] (1876-1949) como bispo da Igreja Gnóstica Universal em 1939. Durante a Segunda Guerra Mundial a Igreja Gnóstica Universal foi dissolvida e em 1944 Constant Chevillon foi assassinado.
Além de bispo da Igreja Gnóstica Universal Huiracocha foi comendador da Ordo Templi Orientis para as Américas tendo autoridade na Eclésia Gnóstica Católica. No México Huiracocha fundou e presidiu a Fraternitas Rosicruciana Antiqua e agregada a esta a Igreja Gnóstica.
Na década de 30 um discípulo de Huiracocha chamado Israel Rojas Romero deu instruções na Fraternitas Rosicruciana Antiqua da Colômbia a Samael Aun Weor [Vitor Manuel Gomez Rodriguez] (1917-1977) e a Gargha Kuichines [Julio Medina Vaiscano]
Em 1950 Samael Aun Weor publica seu primeiro livro, O Matrimônio Perfeito ou A Porta de Entrada para a Iniciação, que foi reescrito e publicado novamente em 1961. Samael Aun Weor estabeleceu um pequeno templo na Serra Nevada de Santa Marta na Colômbia onde celebrou a Missa Gnóstica e, provavelmente, outros rituais provenientes da Fraternitas Rosicruciana Antiqua.
Na década de 60 foi criado no México o Movimento Gnóstico Cristão Universal e a Igreja Gnóstica Cristã Universal sob a direção de Samael Aun Weor e Gargha Kuichines.
Em 1968 foi publicada a primeira edição do Livro de Liturgia escrito por Samael Aun Weor para uso restrito aos membros da Segunda e Terceira Câmara da Igreja Gnóstica Cristã Universal. Uma segunda edição foi publicada em 1975 e uma terceira edição em 1976.
Com a morte de Samael Aun Weor seus discípulos entraram em desacordo e as atividades das instituições fundadas por ele se encerraram em 1978. O fim das atividades do Movimento Gnóstico Cristão Universal e da Igreja Gnóstica Cristã Universal gerou uma grande quantidade de instituições e escolas baseadas nos livros de Samael Aun Weor e nos rituais do Livro de Liturgia Gnóstica que desenvolveram suas atividades segundo sua própria visão dos conceitos e práticas deixadas pelo autor.



Apocaliptica


O termo apocalíptica judaica parece ser parte da tradição do antigo testamento mesmo muito distinto dela. Entretanto foi de grande ajuda para plasmar o mundo conceitual do 1° século cristão com suas expectativas escatológicas. Sua grande importância é para um maior entendimento das origens e evolução da fé cristã. Evidencia-se a partir da década de 50 muitas tentativas de resgatar a apocalíptica visando compreender melhor o judaísmo e o cristianismo. A disponibilidade de novos textos com boa tradução inglesa nos coloca em melhores condições dentro do campo de pesquisa. Dentre a literatura intertestamentária se destacam os manuscritos de Qumrã cujo principal valor é a contribuição para entendermos a complexidade do judaísmo florescente no começo da era cristã e a estreita afinidade entre essa comunidade e outros grupos de apocalípticos de que provinham esses documentos. Notasse nesse tipo de literatura o uso freqüente de alegorias e simbolismos para transmitir a mensagem, geralmente escritos em ambientes judaicos entre 2.5000 a c e 100 d c. Entre os apocalípticos da bíblia destacam-se Daniel e Apocalipse por serem obras primas do gênero, porem não há critérios pelos quais possam ser classificados com precisão. A investigação acadêmica voltou-se nos últimos anos para a questão das origens da apocaliptica quanto as suas origens, sob quais circunstâncias e sua relação com a tradição do velho testamento. Teologicamente o termo apocalíptica é muito instável e muitas discussões ainda surgirão sobre ele tanto em seu caráter literário (Apocalipse – gênero literário) quanto em seu material escatológico (Apocalíptica-preocupação especial com a coisas ultimas), (escatologia apocalíptica- perspectivas apocalípticas) e também na exegese de seus textos.

sábado, 9 de março de 2013

Princípios Teológicos Gnósticos


1.3.3. Os Princípios Teológicos Gnósticos


Os princípios gnósticos (do gnosticismo ocidental, da vertente ocidental, bem entendido) têm seu fundamento filosófico em Platão. Para Platão, as idéias, independentemente das coisas e do intelecto humano, são as causas temporais para os objetos sensíveis. As idéias ou formas são entidades incorpóreas e invisíveis, reais, eternas e sempre idênticas a si mesmas, escapando à ação corrosiva do tempo, que torna os objetos físicos perecíveis. Ou seja, nosso mundo tridimensional tem uma origem, um molde, e esse molde é a realidade verdadeira, e não o mundo físico.
Para Platão, porém, os primeiros Princípios, o mundo das idéias, têm a função de objeto do conhecimento. Valem para explicar a realidade física tanto da esfera superior como do mundo. Mais tarde, os sucessores de Platão, baseando-se no Uno, como princípio transcendente, alteraram estas bases do platonismo antigo. Os princípios que eram, para Platão, objetos ou meios de conhecimento passarem a ser considerados uma entidade real, dignos de veneração, que poderiam produzir outros seres por meio de geração ou de emanação. O Uno passou a ser objeto real que poderia produzir outros seres através da emanação ou geração.
Para Piñero e Montserrat, estes dois momentos, a passagem de objeto a sujeito e a possibilidade da geração/emanação, ocorrem em todas as vertentes do platonismo e leva a profundas divergências. Alguns grupos gnósticos prescindem do Uno e consideram dois princípios: o Intelecto e a Alma divinos, o que significa uma concepção diádica. Outros grupos mantêm a existência do Uno, porém afirmam que o Uno gera o Intelecto e a Alma como entidades independentes. Os Princípios primeiros formariam, sob este ponto de vista, uma tríade, Uno, Intelecto e Alma (ou, segundo a ritualística gnóstica, Espírito, Mente e Razão). E ambos os sistemas consideram uma divisão da Alma em duas subentidades
Os que consideram os três Princípios (Uno, Intelecto, Alma do Mundo) insistem que o Primeiro, o Uno, é o Sumo Transcendente, além do ser e do inteligível. Defendem um processo de descida dos Princípios superiores aos inferiores através da emanação ou geração. O segundo Princípio é o Intelecto e contém em si todos os inteligíveis. O terceiro é a Alma/Espírito, que pode ser concebido como dois subprincípios, uma Alma Inteligível e uma Alma do Mundo.
Este sistema triádico aproxima os gnósticos cristãos à Trindade do Novo Testamento. O Deus Supremo, primeiro Princípio, corresponde ao Deus Pai. O segundo Princípio, o Intelecto, corresponde ao Filho, é o Logos, que se faz homem em Jesus e em todos aqueles que encarnam o Cristo Cósmico. Desse Filho procede a centelha divina, que se encontra nos homens espirituais. O terceiro Princípio corresponde ao Espírito Santo. Em seu desdobramento inferior é o Princípio divino no tempo, a Alma do Mundo, a Natureza e o Criado.
Os gnósticos afirmavam que os judeus conheceram o terceiro Princípio em seu produto inferior, que é o Demiurgo e apenas através da revelação da Bíblia hebréia. Afirmavam também que os cristãos normais não vão além do segundo Princípio, somente os gnósticos, os espirituais, chegariam ao primeiro Princípio.
Para os seguidores do esquema diádico, a metafísica dos princípios é: o "Deus Supremo" é um Intelecto que é bom, o equivalente ao segundo Princípio dos sistemas triádicos acrescido do Bem. O "Segundo Deus" ou princípio do Cosmos equivale ao terceiro Princípio dos sistemas triádicos ou Alma do Mundo. Este "Segundo Deus" se desdobra em dois subprincípios um inteligível e outro sensível.
À ramificação triádica da tradição platônica pertencem os neopitagóricos, os valentinianos, os basilidianos e Plotino. Ao ramo diádico pertencem Filón, Numenio, Albino e Poimandres e, entre os gnósticos: os sethianos e Justino Gnóstico. Os teólogos da ortodoxia cristã antes do Concílio de Nicéia são teologicamente trinitários, porém filosoficamente diádicos. Pode-se reconhecer, também, nas diversas escolas ou correntes influências de outras tradições filosóficas, em particular do estoicismo.
  1. Para os sethianos, os Princípios (Intelecto/Alma do Mundo) não são concebidos como substâncias. Há uma multiplicidade de graus ou estratos de emanação descendente da divindade: Primeiro estrato - Formado pelo Uno.
  2. Segundo estrato - Os Eons Superiores Femininos - O sujeito deste estrato recebe o nome de Barbeló. Barbeló se "ergue" diante do Espírito Transcendente e é definido como sua Imagem e seu Pensamento. Ela recebe os nomes de Inteligência, Providência, Incorruptível, Vida Eterna e Verdade. Barbeló vai desempenhar a função de Princípio dos estratos inferiores e Princípio do Universo.
  3. Terceiro estrato - Os Eons Superiores Masculinos - O sujeito deste estrato recebe o nome de Unigênito e Filho. Os Eons do segundo e terceiro estratos formam o Pleroma Superior que virá a ter o momento de queda ou "deficiência".
  4. Quarto estrato - Os Eons do Pleroma Inferior - estes Eons foram engendrados pelo Deus que foi engendrado, o Cristo.
  5. Quinto. estrato - o Eon Sabedoria - A função da Sabedoria (Sophia) é a criação do universo, é a "mãe do universo". Sabedoria é "a que olhou para baixo". Esta descida da Sabedoria é concebida como "inocente".
Há dois motivos para a queda da Sabedoria: primeiro, produz uma obra sem o consentimento do Pai e, segundo, o faz separada de seu consorte. O resultado desta ação é um trabalho imperfeito, o Arconte demiúrgico ou uma sombra que, através da matéria, produz o arconte Demiúrgico. Em função desta obra, a Sabedoria é denominada material (gr. Hylikós).
A Sabedoria busca a luz que a havia porém não pode alcançá-la por causa do impedimento do Limite. Por não poder ultrapassá-lo, por continuar misturada à sua paixão e, ao permanecer abandonada fora do Pleroma, a Sabedoria cai em todo tipo de paixões, multiformes e variadas. Destas paixões (também divinas), nasce a primeira matéria, primordial e inteligível, não sensível, tem origem o Demiurgo. As demais coisas nasceram de seu temor e de sua tristeza. Das lágrimas da Sabedoria vieram as substâncias úmidas; de seu riso, a sabedoria luminosa; de sua tristeza e de seu estupor, os elementos corporais do mundo.
Esta matéria primordial não é o mundo corpóreo, porém o substrato a partir do qual se plasmará o mundo corpóreo. O mundo visível será criado, posteriormente, pela Sabedoria de modo indireto, graças ao Demiurgo. O Demiurgo - A criação do mundo físico é atribuída ao Arconte Demiurgo.
Esta figura intermediária entre o universo material e o Transcendente serve para afastá-lo do universo de modo que o Ser Supremo fique livre de ter criado diretamente o material, porém, o universo, em última instância, foi originado do último termo da divindade, já que o Demiurgo pertence ao âmbito do divino. Com a existência da matéria permaneceu confirmados também a Deficiência, a oposição ao Transcendente e, em último caso, o Mal.
Os gnósticos se dividem quanto à substância da qual é formado o Demiurgo. Para a maioria, possui somente a substância psíquica, para outros, tem dentro de si uma centelha divina que procede da substância de sua Mãe, ainda que logo a perca ao criar o homem.
O Demiurgo engendra ou produz Auxiliares para a obra da criação. Estes auxiliares, os arcontes inferiores, correspondem a dois modelos: o planetário e o zodiacal. O modelo planetário puro consta de sete arcontes, um para cada círculo planetário. O modelo zodiacal puro consta de doze membros. Há também um modelo misto, zodiacal e planetário. São os 7 e os 12 Salvadores.
A criação demiúrgica - A função do Demiurgo é operar a matéria inteligível, preexistente a ele, por meio de uma forma recebida do alto. Isto significa plasmar o mundo, pelo desejo indireto do Transcendente, a partir da substância primitiva e incorpórea gerada pela sua Mãe Sabedoria. Porém, executa esta tarefa sem saber exatamente o que fazer, pois o faz por mímesis e por ordem do Pleroma, sem disso ter consciência.
Com a criação já concluída pelo Demiurgo, aparecem três substâncias que desempenham papel muito importante na soteriologia:
a)      A substância espiritual, "pneumática" ou divina (que se acha dentro do Pleroma) e, fora dele, na Sabedoria que também é um ente divino e, posteriormente, no espírito ou parte superior do ser humano.
b)      A substância "psíquica"; engendrada pela Sabedoria inferior; é própria do Demiurgo e de alguns níveis intermediários entre a matéria e o espírito, por exemplo, no princípio vital, ou alma do homem.
Em terceiro lugar, a substância puramente material, ou hílica, representada pela matéria toda do cosmo.
O mito cosmológico gnóstico significa que o Uno não intervém de modo direto na criação do mundo. Está demasiado distante para atuar "pessoalmente", pois a matéria é uma entidade degradada, que ocupa um posto muito baixo na escala do ser. O princípio imediato da criação do cosmos é o Intelecto divino no qual se acham as idéias, modelos ou princípios que serviram para criar o cosmo.
Desta cosmologia se deduzem algumas conseqüências importantes para a antropologia, a ética e a soteriologia:
  Ao final das contas, tudo procede de uma única fonte, o sumo Transcendente por emanação-degradação;
 existe uma separação entre o mundo superior/espiritual (o Pleroma) e o mundo inferior/ material (o kénoma, ou vazio); a matéria é degradação, a última escala do ser, ainda que proceda de Deus, é fruto de uma deficiência, de uma falta do ser divino;

O mal está incluso na deficiência, na paixão da Sabedoria. O universo, criado pelo demiurgo, é mau. O corpo do homem é a prisão do espírito;
Antropologia - a criação do ser humano é efetuada também pelo Demiurgo, assistido pelos anjos. Na maioria dos sistemas gnósticos, a criação do homem acontece porque o Transcendente, ou um dos Eons superiores, em determinado momento, envia aos anjos do Demiurgo, ou a este diretamente, a forma ou imagem do Homem Celeste ou primordial. Um dos Eons do Pleroma, o Salvador, ou o Pleroma completo, se reflete nas águas inferiores e desencadeia o processo de criação.


sexta-feira, 8 de março de 2013

A Trindade nos Sistemas Gnósticos


1.3.2.  A Trindade nos Sistemas Gnósticos


a) A Divindade Suprema
No principio e na origem do Todo os gnósticos postulam a figura de um Deus impossível de se conhecer em sua essência e indefinível. É a absoluta transcendência, um Ser Perfeito, supra-exististe, que vive em si mesmo em alturas invisíveis e inomináveis, infinito segredo da magna paz e solidão. Qual quer imagem mundana de Deus será falso. Segundo Piñero e Montserrat só podemos caracterizá-lo por seus traços negativos.
...no necessita de nadie; es algo más que vida; es ilimitado; inconmensurable, más infinito que La perfección; se halla por encima de lo que llamamos divinidad; está m´s Allá Del ser e incluso de La misma unidad. Pero su grandiosa tranquilidad no es incompatoble com que este Dios supremo este de algún modo acomompanãdo de um ser que es como la outra cara de si mismo y su cónyuge: su Consciencia, su Pensamiento, su Paz, su Silencio, etc[1]
Isso significa que entre os princípios gnósticos aparece a figura da deidade feminina, que os estudiosos da história das religiões interpretam como um resto do antigo politeísmo, logo purificado e intelectualizado. Em alguns sistemas é mostrada como a companheira do Uno, Silêncio em outros, se mostra como o eón[2] Sabedoria ou o Pneuma[3] , que desempenha  um papel importante na geração do cosmos. Desse modo pode-se inferir uma trindade.

De este modo, uma suerte de Trinidad _que puede describirse como Padre-Madre (cônjuge)-intelecto (Hijo produto de ambos), o bien como Padre/Madre-Hijo(intelecto)-tercer Eón divino_ se dibija em los sistemas gnósticos aun antes de que tales especulaciones se aplicaram a la elucdación de la Trinidad Cristiana.[4]


b) Pleroma
 O Deus Uno, em determinado momento, através de emanação, projeção ou geração, projeta-se no exterior, desdobrando-se, "gerando" uma série de entidades divinas, os Eons, ou Sefirotes da Cabala.
c) Os Eons
            São, portanto, entidades divinas procedentes do Uno, e são o inteligível ou o perceptível do Uno. Essas emanações, ou gerações intradivinas, originadas do Uno-Transcendente, constituem o Pleroma, ou Plenitude da Divindade.
Na formação do Pleroma há que se distinguir dois momentos: em um primeiro estágio é formada a substância ou ser dos Eons, em um segundo momento é formada a gnose ou conhecimento. O Transcendente dá a esses Eons, formados substancialmente, o conhecimento de si mesmos só num momento posterior. É quando passam a ser divinos. A queda pleromática - Dentro do Pleroma acontece uma falha. Esta "falha" irá explicar o nascimento do cosmos e a origem do mal. Entre os dois momentos do Pleroma, quando ocorre a formação dos Eons, segundo a substância e segundo o conhecimento, ocorre esta falha. Um dos entes divinos, a Sabedoria (ou Sofia), quer chegar ao conhecimento do Uno antes do tempo. Isto seria um desejo correto, justo se acontecesse no momento certo, de acordo com a vontade do Transcendente, mas, como acontece antes da hora, passa a ser uma paixão.
Porém esta paixão, este desejo prematuro pelo conhecimento pleno do Uno, continua sendo efetivo, apesar de imperfeito, pois é o desejo de uma entidade divina. Ainda assim esta paixão provoca a queda do Eon e por isto este Eon será expulso do Pleroma. Este lapso de tempo em que o Eon Sabedoria fica fora do Pleroma tem uma dupla dimensão conceitual: teológica e cosmológica.
Teologicamente representa o nascimento do pecado, da deficiência, do Mal, que exigirá a necessidade de um Salvador. Com o Salvador se inicia, dentro do Pleroma, um processo de salvação, que mais tarde se repetirá neste mundo. Cosmologicamente, este "pecado" do Eon Sabedoria significará o princípio da matéria, do universo todo. É da paixão deste Eon que surgirá a substância informe e espessa da qual irá brotar todo o universo material. O Eon caído se arrepende de seu pecado e para que o Pleroma não fique incompleto, para que a Totalidade divina não seja abalada por isto, o Uno, através do Salvador, resgata o Eão Sabedoria. Separa-o da substância informe e espessa que resultou da sua paixão e que deu origem ao universo e o faz retornar ao Pleroma (tudo isto está descrito na Bíblia gnóstica Pistis Sofia).
Desta forma, tem origem um duplo Eon pecador: a) um superior que se arrependeu e que volta ao Pleroma e passa a ser denominado Sabedoria Superior; b) outro que permanece fora do Pleroma, filho da Sabedoria Superior, e passa a ser denominado Achamot ou Echamot.
A Sabedoria também ficará dividida em duas partes: a superior, redimida, reintegrada ao Pleroma; e a inferior, que ficará fora do Pleroma e impedida pelo Limite de retornar. Será o agente divino no exterior e posteriormente, vai dar origem a matéria.
O Transcendente então gera mais um Eon, denominado "Limite", que tem a função de separar. Separa os Eons do nível superior e do nível inferior, o universo material. O "Limite" entre o Pleroma e o universo, que será o modelo da cruz redentora no gnosticismo cristão, que redimirá o homem e separará os não-gnósticos, que serão condenados.




[1] PIÑEIRO e MONTSERRAT. Pag.42
[2] Éon, eão, eon ou ainda aeon significa, em termos latos, um enorme período de tempo, ou a eternidade. A palavra latina aeon, significa "para sempre". Ela é derivada do grego αιών (aión), cujo um dos significados é "um período de existência" ou "vida".Wikipedia.
[3] Espírito ( que o hebraico é feminino) PIÑEIRO e MONTSERRAT
[4] PIÑEIRO e MONTSERRAT. Pag.43